Colapso da FTX e seu impacto no mercado cripto

A exchange (corretora cripto) FTX se declarou insolvente e a Binance — sua principal rival — anunciou sua aquisição no dia 8 de novembro; porém, no dia seguinte, a Binance volta atrás e desiste da compra.


Por gerar uma crise de confiança, o mercado de criptomoedas sofreu fortes quedas nos últimos dias. O motivo? Houve uma corrida repentina de saques dos clientes da FTX, inclusive de grandes investidores institucionais, segundo o WSJ — para se ter ideia, a exchange registrou resgates líquidos de quase US$ 1 bilhão!


Mas a história não para aí: tudo começou devido a um conflito de interesses entre as duas principais exchanges.



FTX versus Binance: como tudo começou?


Sam Bankman-Fried (SBF) veio do mercado financeiro — mais especificamente da área de fundos quantitativos — e entrou no mundo cripto através do fundo de hedge Alameda Research. Aqui, viu uma oportunidade de criar uma nova exchange para seu braço de investimentos cripto, que reunia diversos elementos do mercado financeiro tradicional — gestão de risco, derivativos, dentre outros. Essa nova corretora é a FTX.


Em 2019, Changpeng Zhao (CZ), CEO da Binance, decidiu investir na FTX. Nesta ocasião, a parceira era uma estratégia interessante para ambas, pois geraria liquidez para o mercado cripto como um todo e viabilizaria a oferta de novos produtos. Porém, a FTX cresceu e passou a representar uma ameaça para a Binance.


Por ter investido nela e se tornar sua principal concorrente, a Binance optou por vender sua participação na FTX. O acordo de venda de sua participação, em torno de US$ 10 bilhões, foi pago em três partes: dólares, dólares digitais e token “FTT” — este foi criado pela própria FTX, utilizado para pagar taxas de corretagem, no valor de US$ 2 bilhões.


➡️ Tanto a FTX quanto a Binance têm seus próprios tokens. O token da Binance é chamado de BNB — do mercado de criptoativos, tem 4º maior market cap da atualidade! Go deeper.



🪙 Sucesso da FTX e seu "calcanhar de Aquiles"


O token FTT era vantajoso para os investidores, pois dava descontos na taxa de corretagem. Mas isso foi além: a FTX passou a comprar mais tokens e “queimá-los”. Por quê? A lógica é simples: com menos tokens em circulação, os preços aumentavam.


Como parte do patrimônio da FTX (e do Alameda) estava em FTT, toda vez que o token subia, acontecia o mesmo com o valor de mercado da exchange. Bom para os clientes, ótimo para a FTX. Mas a fórmula de sucesso torna-se seu próprio "calcanhar de Aquiles" — e sua rival suspeitava disso.



🪙 Como destruir seu rival com um único tweet


Tudo começou no dia 30 de outubro. Nesta ocasião, CZ e SBF trocaram “farpas” do Twitter. O motivo: a FTX estaria fazendo um lobby com o governo americano, que prejudicaria as exchanges concorrentes. Por conta disso, a Binance decide apostar contra sua rival: no dia 6 de novembro, CZ anuncia (via Twitter) a venda total da posição da Binance em tokens FTT, de US$ 2 bilhões.


Como efeito, gerou-se uma crise de confiança entre os investidores e começou uma corrida para desfazerem posições — o token FTT cai quase 20% em menos de 24 horas! Para conter as perdas, o fundo Alameda Research anuncia a compra de toda a posição da Binance.


💣 Mas a "bomba" vem a tona: minutos depois do anúncio de compra, o balanço do Alameda vaza e revela que eles operavam de forma alavancada — US$ 12 bilhões em ativos, mas metade dele eram tokens FTT! Em outras palavras: composto em grande parte em ativos ilíquidos e que estavam indo ladeira abaixo, o que gerou um "efeito dominó".


A lógica é simples: “Se o fundo Alameda Research, principal braço de investimentos da FTX, está ilíquido, então a exchange também está”


Em meio ao caos, surge um "salvador". Adivinha? Isso mesmo: a Binance anuncia a aquisição da FTX, a fim de garantir liquidez e evitar a falência de sua concorrente. Porém, voltou atrás de sua decisão, alegando problemas graves no processo de “due diligence”. Em 2022, outras três grandes empresas do setor quebraram pelo mesmo motivo: Celsius, Voyager e Three Arrows Capital.


Esses eventos e a desistência da aquisição aprofundou a crise do setor, que perdeu mais de US$ 200 bilhões em valor de mercado em apenas três dias. Com a quebra da FTX, a Binance pode dominar cerca de 80% do mercado cripto. Especialistas nomearam o colapso da FTX de "Lehman Brothers do mercado cripto", em referência à queda do Lehman Brothers em 2008, durante a crise financeira global.

Atualizações após o colapso da FTX


🔵 BlockFi entra com pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos. Fundada em 2017, a plataforma de negociação e custódia de criptoativos deu o primeiro passo para decretar sua falência como efeito da crise de confiança após o colapso da FTX.


🔵 Em entrevista ao jornal The New York Times, SBF afirmou que foi uma “aposta equívoca” e está tentando ajudar as partes interessadas da FTX após o colapso.


🔵 Banco Central Europeu (BCE) critica Bitcoin em meio à crise do mundo cripto. Ulrich Bindseil, diretor-geral do BCE, disse que o “Bitcoin caminha para irrelevância” e está em seu “último suspiro”, pois não seria um bom investimento ou reserva de valor.


Referências

https://www.leiaobsb.com/p/plantao-bsb-ftx-and-binance

https://twitter.com/vowtz/status/1590333300232450050

https://www.axios.com/2022/11/09/understanding-crypto-exchange-tokens-in-light-of-ftxs-collapse

https://braziljournal.com/de-salvador-a-resgatado-como-a-ftx-implodiu/

https://valor.globo.com/financas/criptomoedas/noticia/2022/11/09/binance-diz-que-decidiu-no-comprar-a-ftx.ghtml

https://coin360.com/coin?display=all](https://coin360.com/coin?display=all