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NRF 2026: Menos tech, mais proximidade

9 de fev.
7 min de leitura

Nos últimos anos, o varejo correu na mesma direção, tanto no online quanto na loja. Os objetivos eram sempre: mais velocidade, mais automação, menos fricção. Esse movimento trouxe escala e produtividade, mas também levou o setor a um ponto curioso: hoje, quase todo mundo faz o básico, mas de forma parecida.

A NRF 2026 deixou claro que ter tecnologia, canais digitais e operações eficientes já não diferencia mais. Isso virou o novo padrão. A disputa agora acontece em outro nível: na capacidade de estar mais próximo - tornar a experiência relevante, coerente e conectada à jornada das pessoas.

O consumidor mudou. Ele está mais exigente, menos tolerante a experiências genéricas, têm acesso fácil a muita informação sobre produtos e está muito mais atento a como as marcas se comportam ao longo de toda a jornada, não só no momento da compra. Ele espera ser reconhecido, quer se envolver com marcas que façam sentido e deseja concluir suas compras no seu ritmo e sem obstáculos desnecessários.

É nesse contexto que se consolidam três grandes diferenciais no novo momento do varejo:

  • Personalização, que deixa de ser segmentação e passa a ser individualização

  • Engajamento, que transforma marcas em espaços de experiências

  • Autonomia, que elimina fricções e respeita o tempo do cliente

Esses três pilares aparecem de forma consistente nos relatórios, cases e discussões da NRF 2026, não como apostas futuras, mas como caminhos já em execução pelos varejistas mais avançados.


Pilar 1 - Personalização: do segmento para o indivíduo

A personalização deixou de ser um diferencial e passou a ser uma expectativa básica. Mas o que mudou de verdade foi o tipo de personalização que o consumidor espera.

Não basta mais entregar ofertas de produtos sem lactose para pessoas intolerantes à lactose. A tendência hoje é que você ofereça delivery de produtos sem lactose às 18h no dia certo porque você sabe que o consumidor gosta de cozinhar na sexta-feira à noite.

Não basta mais falar com um grupo parecido. O desafio agora é reconhecer o indivíduo no contexto certo, no momento certo e com o produto correto.

 

Database único para analisar

Os varejistas mais avançados estão abandonando estruturas fragmentadas de dados para ecossistemas integrados de dados, combinando informações de CRM, CDP, plataformas de marketing, ERP e dados financeiros. Essa visão unificada permite entender não apenas quem é o cliente, mas o que está acontecendo com ele agora. Segundo os relatórios apresentados na NRF, 35% dos varejistas líderes priorizam plataformas integradas de dados operacionais e de clientes, conectando loja física, digital, atendimento e pós-venda.

Na prática, isso reduz ruídos clássicos da jornada: repetir informações, receber ofertas desconectadas ou ser tratado como um “novo cliente” a cada interação. A experiência fica mais contínua, mais simples e mais natural. A personalização deixa de ser um esforço de campanha e passa a ser uma capacidade estrutural da operação.

 

Ofertas que acompanham a intenção, não só o histórico

Outro avanço importante está na forma como as marcas passam a interpretar o comportamento do consumidor. Em vez de olhar apenas para compras passadas, o foco se desloca para sinais de intenção e contexto.

Essa abordagem tem impacto direto nos resultados. Estudos apresentados na NRF indicam que experiências personalizadas podem reduzir o custo de aquisição em até 50% e aumentar a receita entre 5% e 15%. Além disso, 80% dos consumidores afirmam comprar mais de marcas que oferecem experiências sob medida.

Quando a recomendação faz sentido, ela deixa de parecer uma tentativa de venda e passa a ser percebida como ajuda. A lealdade deixa de ser medida apenas pelo RFV (recência, frequência e valor) e passa a incorporar o impacto da experiência criada na memória do consumidor.

 

GEO: descoberta por contexto 

SEO ficou para trás, agora o que importa é a entrega de resultados pelas ferramentas de IA, o tal GEO (Generative Engine Optimization). Com as ferramentas e os ChatGPTs da vida a interação com a máquina não é mais feita a partir de palavras-chave, mas sim através de questionamentos complexos, buscas por agentes e tudo isso contextualizando a ferramenta para alcançar os melhores resultados. Cada vez mais pessoas descrevem situações, problemas e desejos em vez de procurar itens específicos. Não por acaso, 58% dos consumidores já preferem usar ferramentas conversacionais e assistentes digitais para buscar recomendações, em vez de buscadores tradicionais.

Para o varejo, isso significa estruturar melhor seus conteúdos, catálogos e descrições para responder a perguntas reais, do jeito que as pessoas falam, não apenas para “ranquear”. Páginas de produtos devem contar histórias e contextualizar o usuário para serem relevantes e servirem como respostas das ferramentas de IA.


Pilar 2 - Engajamento: a loja como destino de significado

O engajamento no varejo deixou de ser apenas uma questão de tráfego ou frequência. O que está em jogo agora é a qualidade da relação que a marca constrói ao longo do tempo.

 

A loja como experiência, não apenas ponto de venda

Para aqueles que pensavam que a loja física morreria, um abraço. Os pontos de venda vivem um novo momento. Em vez de competir com o digital em conveniência, eles assumem o papel de potencializador da experiência do cliente: gerar memória, inspiração e conexão emocional.

Casos apresentados na NRF mostram que formatos focados em experiência podem gerar aumentos de até 600% nas vendas, justamente porque priorizam o tempo bem vivido, e não apenas a transação rápida. A compra acontece como consequência, não como objetivo imediato. É como o caso da Hermès, marca de luxo que leva à sua flagship o conceito de “casa”, um lugar acolhedor, com espaços para se sentar, tomar café, conversar com as pessoas, e, por acaso, comprar se você e a marca se conectarem.

 

Valores percebidos na prática

Diante do excesso de ofertas e mensagens, o engajamento passa a ser sustentado pela coerência entre discurso e prática. Marcas que comunicam valores, mas não os sustentam na operação, perdem relevância rapidamente.

Os números reforçam isso: 66% dos consumidores dizem estar dispostos a pagar mais por produtos alinhados a valores ambientais e sociais, e empresas com atuação consistente nos temas que defendem conseguem aumentar a retenção em cerca de 20%.

Aqui, o engajamento nasce menos do discurso e mais da demonstração concreta, atendimento, transparência, pós-venda e cuidado ao longo da jornada.

Engajar não é comunicar melhor, é operar de forma coerente ao longo da jornada.

 

Comunidades envolvem

Não por acaso, usuários ativos em comunidades ligadas a marcas passam, em média, 80 minutos por dia interagindo, segundo dados compartilhados na NRF. Empresas referência no tema vão além da ativação pontual e estruturam comunidades como um canal estratégico. Nesses modelos, os clientes participantes da comunidade são diferenciados e priorizados pela marca. Eles participam de lançamentos, testam produtos antes do mercado, criam coleções e influenciam todo o ecossistema da marca. O resultado é um tipo de engajamento que não depende de desconto, mídia pesada ou campanhas constantes.

Clubes, eventos, experiências presenciais e iniciativas de social commerce transformam clientes em participantes. Lululemon é um exemplo, cria eventos de yoga abertos a qualquer pessoa em parques públicos para estimular a prática do exercício.

 

Pilar 3 – Autonomia: a experiência se adapta ao cliente

Autonomia é uma das palavras-chave do varejo em 2026. O consumidor quer escolher como interagir, em que ritmo avançar e quando concluir sua decisão.

 

Compras agênticas

Outra mudança relevante está na forma como as pessoas lidam com tarefas recorrentes. Assistentes e fluxos automatizados começam a assumir compras repetitivas, organização de listas e reposições, seja para reabastecer nossa geladeira, seja para balancear centros de distribuição gigantescos com milhares de SKUs.

Esse movimento cresce rápido: pedidos realizados por aplicações mais autônomas cresceram 14 vezes em um ano, com projeção de movimentar US$ 3,5 trilhões até 2030. O ganho principal não é apenas velocidade, mas redução do esforço mental envolvido na compra. O esforço mental já se tornou uma síndrome chamada de FOBO (Fear of Better Options), um dos efeitos colaterais mais claros da internet, o medo constante de existir uma opção melhor logo ali. Quanto mais acesso o consumidor tem a informações, avaliações, comparativos e recomendações, mais difícil se torna decidir. Para comprar uma TV, são 3 reviews no YouTube, 1 thread no Reddit, 2 sites de avaliações e 2 horas nos marketplaces, e pronto, você tem mais dúvidas. O agente de compras resolve isso.

 

Menos filas, menos etapas, menos esforço

A automação da loja física avança como uma resposta direta às fricções mais visíveis da jornada de compra. Filas longas, caixas congestionados e processos repetitivos deixaram de ser apenas um problema operacional e passaram a ser pontos relevantes de desistência de compra. Não por acaso, a adoção de quiosques de self-checkout cresceu 43% em apenas dois anos em setores de alta frequência, como supermercados, farmácias e lojas de conveniência.

Para o consumidor, o ganho é imediato: menos espera, mais previsibilidade e maior controle sobre o tempo gasto na loja. Em vez de adaptar seu ritmo ao da operação, o cliente passa a concluir a compra no momento em que decide, sem interrupções desnecessárias.

Os carrinhos inteligentes (estilo Amazon Go) levam esse conceito um passo além. Ao escanear produtos automaticamente e exibir o valor da compra em tempo real, eles eliminam o momento tradicional do caixa e reduzem a ansiedade associada ao checkout. O consumidor acompanha o gasto enquanto compra, ajusta escolhas no percurso (incentivado por retail media – os anúncios do display) e finaliza a jornada sem a sensação de “surpresa” no final.

 

Pagamento como parte do fluxo, não como obstáculo

O checkout ainda é um dos maiores pontos de fricção do varejo. Hoje, o abandono médio de carrinho no online gira em torno de 70%. Pagamentos mais integrados, rápidos e seguros surgem justamente para reduzir esse atrito.

A experiência na loja foi incrível, mas quantas vezes um fluxo de pagamento ruim já o fez desistir de uma compra e esquecer a boa memória da loja? É justamente nesse ponto que os pagamentos sem atrito ganham relevância. O objetivo não é apenas acelerar a transação, mas eliminar o atrito emocional e cognitivo associado ao pagamento.

Vendedores, com frequência, precisam escolher entre segurança ou conversão. Entretanto, soluções modernas de antifraude e 3DS evoluíram para modelos adaptativos, que analisam comportamento, dispositivo e contexto da transação em tempo real, atuando em segundo plano na maioria das compras, e muitas vezes integrados às carteiras digitais Apple Pay e Google Pay, usando biometria nativa do dispositivo. Para o consumidor, isso significa segurança sem interrupção e, para o varejista, menos abandono de carrinho, maior conversão e redução de fraude sem comprometer a experiência.

Quando o pagamento funciona bem, ele praticamente se torna invisível durante a experiência, e isso tem impacto direto na conversão.


CONCLUSÃO

O varejo como sistema integrado de experiência

A NRF 2026 mostra que o futuro do varejo não está em uma tecnologia específica, mas na capacidade de integrar dados, experiência e operação de forma fluida.

Personalização, engajamento e autonomia não funcionam isoladamente, mas juntas criam jornadas mais naturais, mais relevantes e integradas.

As marcas que se destacam não são as que adotam mais ferramentas, mas as que conseguem deixar transparentes os atritos que possuem na experiência do cliente. O desafio deixou de ser técnico, passou a ser estratégico e cultural.

O varejo de hoje é sobre caminhar melhor ao lado do consumidor.



por Wagner Bergozza

Gerente de Marketing Evertec

1 comentário


timi cpeksi
timi cpeksi
08 de out.

Meu colega de apartamento não para de rir do telefone ultimamente. Ele descobriu um monte de filtros de IA que fazem transformações malucas nas pessoas e fica me mostrando os resultados bizarros. Como ele estava animado demais com uma foto específica que tinha ficado muito convincente, perguntei onde ele tinha feito aquilo. Ele me passou o link diretamente e mandei ver. Entrei no clothoff com a expectativa de mais um site meia-boca, mas me enganei feio. A estrutura do site é muito profissional, cheia de opções de customização para ajustar o nível de alteração que você quer aplicar. Eu usei uma foto minha mesmo, só por diversão, e alterei os parâmetros para ver se ficava realista. A renderização terminou rapidinho e…

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