Unicórnios sob pressão

Com a atual crise econômica, o modelo de criação de negócios baseado no uso abundante de capital de risco e na estratégia de crescimento acelerado, começa a dar espaço a modelos de governança e gestão de caixa mais sustentáveis. Confira a entrevista dada pelos experts do assunto: Carlos Gamboa, sócio fundador da Fisher Venture Builder, e Alvaro Taiar, sócio e líder de New Ventures & Innovation da PwC Brasil

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Após a 99 ter se tornado o primeiro unicórnio brasileiro ao ser comparada pela chinesa Didi Chuxing, o ecossistema nacional de startups passou por transformações e por um crescimento exponencial, com mais 11 organizações chegando ao seleto grupo de empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. Na última semana por exemplo, a VTEX foi a última a entrar para esse time e chamar atenção do mercado que tanto tem valorizado as startups bilionárias.

Entretanto, devido a Covid-19 o ritmo de expansão deu lugar a um modelo de crescimento em que a governança e a gestão de caixa mais responsável estarão no centro do ecossistema dessas organizações. No nosso Report sobre Unicórnios falamos sobre a diferença entre o "zoo" da economia: Unicórnios, Zebras e Camelos. Para exemplificar e debater esse tema de forma mais aprofundada, a CEO Brasil conversou com Carlos Gamboa, sócio fundador da Fisher Venture Builder, e Alvaro Taiar, sócio e líder de New Ventures & Innovation da PwC Brasil. Confira as melhores partes dessa entrevista:

Quais as principais mudanças no ecossistema de startups pós-pandemia? Quais os caminhos para adequação ao “novo normal”?

Carlos Gamboa: O ser humano vai convergir, em algum tempo, para fazer mais ou menos as mesmas coisas que fazia antes da pandemia. Transpondo isso para um cenário de companhias e de startups, acredito que situações e problemas que antes eram empurrados para debaixo do tapete serão vistos com a seriedade devida. Na minha visão, o “novo normal” talvez seja menos uma mudança radical e mais uma adequação a protocolos e planos de contingência de riscos. E isso tem efeito na adoção de soluções tecnológicas, impactando principalmente a automação de processos. As startups, naturalmente, estavam mais bem configuradas para atuar dessa forma. 

Alvaro Taiar: Há um aprendizado com o investimento sequencial nas startups, com a grande valorização entre um round e outro de captação. Num primeiro momento, a empresa valia no mercado US$ 100 milhões, no round seguinte US$ 300 milhões, US$ 600 milhões e depois, em poucos meses, alcançava US$ 1 bilhão em resposta a seu rápido crescimento de receita — mas que estava, em alguns casos, desconectado da capacidade de rentabilizar esses clientes. Era muito mais uma trend de “eu quero investir nessa empresa agora, pois estará mais cara mais adiante”. Embora houvesse essa avidez no mercado, percebeu-se que os investidores já estavam mais cautelosos antes da pandemia. Não que as empresas tenham deixado de ser interessantes – continuam, mas as avaliações dos investimentos passaram a ser mais criteriosas, com reflexos na velocidade de crescimento de seus valuations e com a perspectiva de a empresa gerar lucro e caixa. Então, percebemos que já existia um aprendizado de mercado e uma tendência que não teve relação direta, num primeiro momento, com essa crise causada pelo novo coronavírus, mas que pode ter sido consolidada pela crise. Contudo, sou otimista em relação à perspectiva desse “novo normal”. Com os juros mais baixos no mundo todo e também no Brasil e com maior procura por investimentos alternativos, entre os quais se inclui o venture capital, haverá, certamente, uma continuidade de valorização das empresas com operações e serviços digitais e disruptivos, só que os critérios para selecionar as vencedoras já está mais ponderado.

As startups estão sob forte pressão por maturidade financeira, inclusive no Brasil. Quais são os nossos principais desafios? 

Carlos Gamboa: Havia um fluxo de recursos muito grande para investimentos. Vivíamos um bull market com investimentos crescentes e, nesses momentos, muitas vezes os processos de seleção e validação são flexibilizados. O dinheiro fluía para projetos que, em alguns casos, não tinham pilares de rentabilidade e execução comprovados. Em um cenário de pandemia, a sustentabilidade financeira vem à tona porque existe a necessidade de se reorganizar e preparar a saída para o pós-crise. As startups são, assim, cobradas por uma gestão mais organizada e por ritos mais bem definidos. Os excessos pré-crise vão ser repensados e o investidor, com certeza, vai demandar uma validação mais assertiva antes de realizar aportes. 

Alvaro Taiar: O próprio relatório Unicórnios, da Fisher, mostra um cenário de redução dos investimentos que vêm do exterior no início da crise da Covid-19. E as empresas que contavam com novos rounds de investimento tiveram de administrar seu caixa até essa turbulência passar, para não ficarem dependentes de recursos de crédito. Além disso, o país tem questões, como o “custo Brasil”, os riscos fiscais, a expectativa de reformas e um excesso de judicialização, que precisam ser tratadas. Acredito, porém, que o dinheiro voltará depois da pandemia — pois, mesmo com esses desafios, o tamanho do mercado brasileiro é muito atrativo para empresas com soluções que buscam escala através do digital e com a desvalorização da nossa moeda os nossos ativos voltam a ficar atraentes para investidores estrangeiros. Além disso o brasileiro está aprendendo a investir em startups através do venture capital e também como investidor-anjo nos níveis mais iniciais das empresas. 

E as startups que já são unicórnios, elas também sentem essa pressão do mercado?

Carlos Gamboa: Tem unicórnio que vai perder chifre. A maré desce e a gente vê o que está abaixo do nível do mar. Quem tinha um chifre postiço poderá ver o chifre cair. As startups que apresentaram um crescimento insustentável, baseado em rodadas de investimento consecutivas, em valuations crescentes e com uma promessa muito grande para o futuro, normalmente caem nesse momento, são mais frágeis em relação às crises.

Alvaro Taiar: Uma startup tem foco total em marketing e no crescimento das vendas, mas em algum momento precisa assegurar a estabilidade do negócio. Entretanto, quando atingem um determinado tamanho, como é o caso dos unicórnios, faz-se necessário investir mais em controle de fluxo de caixa e também em segurança digital — já que uma empresa sem caixa corre o risco de quebrar e a que estiver sujeita a fraudes fica com a imagem manchada perante os clientes. A pandemia ensinou que os unicórnios precisam estar preparados para o momento de vacas magras, com uma estrutura de controle robusta, mantendo a cultura organizacional de criatividade e de rápida transformação.

Quais são os segmentos mais enfraquecidos e os mais fortalecidos pela crise?

Carlos Gamboa: O setor de educação digital sai muito fortalecido; o setor de automação de processos e tudo que for relacionado à redução de custos também. Outro setor que cresce muito é o de saúde: telemedicina, controle e monitoramento de pandemias, custos hospitalares e controle de pacientes são alguns dos campeões. Esses setores tiveram agora um catalisador muito grande, e as barreiras de adoção que seguravam o crescimento dessas startups — e consequentemente reduziam seu valuation potencial — foram derrubadas. 

Alvaro Taiar: Há muitas áreas que estão dando certo nesta nova economia. O segmento das fintechs, por exemplo, é o que tem mais unicórnios no mundo. O Brasil é muito forte em agricultura e, com isso, temos um potencial gigantesco para o crescimento de agritechs por meio da venda de soluções aplicáveis no mundo inteiro. Outras áreas pujantes são as de saúde — com o crescimento acelerado de healthtechs —, educação on-line e obviamente o e-commerce, já que muitos consumidores foram atrás dos canais digitais devido às medidas de isolamento mas se acostumaram com suas vantagens. Entre os setores que estão sofrendo mais com a crise está o de turismo, mas que certamente voltará no pós-crise e também se beneficiará do canal digital, por exemplo, por meio da maior customização das experiências.

O que muda na relação entre startups e grandes corporações em busca de inovação? Novas oportunidades poderão surgir no mercado?  

Carlos Gamboa: Sim. E esse é mais um motivo pelo qual as startups devem buscar a capacitação, melhorar seus processos e sua diligência financeira. As grandes organizações buscam construir programas de inovação que ofereçam resultados factíveis. Processos como a inovação aberta, em que os problemas são identificados e depois a melhor solução é procurada no mercado, são exemplos de como efetivamente reduzir as dores das grandes empresas através das startups

Alvaro Taiar: Empresas que eram tímidas em digitalização precisaram acelerar o relacionamento digital com seus clientes — não apenas em relação a um serviço ou produto digital mas também em análise de dados e inteligência artificial — para poder ter um serviço mais customizado e orientado por algoritmos. Nesse sentido, acreditamos que vai crescer ainda mais o corporate venture, no qual as corporações investem, criam parcerias ou mesmo adquirem startups para que seus grupos econômicos mantenham a relevância no novo mercado. 

Caso tenha se interessado pelo assunto, não deixe de conferir nosso Report exclusivo sobre Unicórnios.

Além disso, clique AQUI acessar a entrevista na integra.