#snaqentrevista: José Pedro Cacheado, sócio da Norte Ventures

Confira o nosso bate-papo exclusivo sobre o mercado de venture capital no Brasil. Veja o panorama de 2020 e as perspectivas para o setor em 2021, além da análise da maturidade do ecossistema de startups segundo a visão de Cacheado.

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Nós sabemos de 2020 foi bem diferente do planejado, mas alguns setores terminaram o ano com uma alta histórica. Na entrevista a seguir você confere os principais pontos para o aumento expressivo de M&As no Brasil, assim como um overview dos últimos acontecimentos envolvendo startups.

snaq: Na opinião de vocês, como foi o ano de 2020 comparado às expectativas traçadas no final de 2019?

José Pedro:  Como é de se imaginar, o ano de 2020 se mostrou muito diferente em relação às expectativas traçadas. No final de 2019, os mercados para ativos de risco em geral estavam super aquecidos. Os mercados de equity (olhando para Brasil e EUA) estavam próximos de suas máximas históricas, por exemplo. O Brasil estava com a taxa Selic em seu nível mínimo (4.5%). O ambiente era muito propício para a busca por retornos via investimentos em ativos mais arriscados, como por exemplo venture capital. Isso foi demonstrado pelo recorde tanto em volume de investimentos feitos (USD 2.97bi¹) e pelo valor de recursos captados por fundos de VC (USD 1.08 bi²).

Um cenário como esse de muito capital disponível leva a uma pressão para a alocação de recursos por parte dos fundos, o que eleva a competição dos fundos pelos deals e portanto tende a elevar os níveis de precificação das rodadas de VC. Sabendo isso, o que esperávamos no final de 2019 era a continuação de um cenário de grande liquidez e uma busca acirrada por bons deals de VC, a preços mais elevados dado o nível de competição e capital disponível.

O que vimos em 2020 foi que, nos primeiros meses da pandemia, o mercado de VC no Brasil praticamente parou. Os principais fundos seguraram a procura por novos investimentos para focar em dar suporte às suas empresas de portfólio. Outros tipos de investidores mais tradicionais que se interessaram por investir em VC (por exemplo family offices)  ao longo de 2019 e começo de 2020 fugiram dessa classe de ativos para outras menos arriscadas. De maneira muito rápida, o capital disponível para VC ficou muito escasso.

Após alguns meses de pandemia e com o impacto do distanciamento social, ficou evidente que algumas mudanças na forma de comportamento das pessoas foram aceleradas, entre elas a rápida adoção de alternativas digitais nos mais variados setores e a aceitação do trabalho remoto ou flexível como regime de trabalho. Mudanças de comportamento como essas são sempre oportunidades únicas para os VC interpretarem como essas mudanças vão impactar o futuro e fazer os seus investimentos de acordo com essas interpretações.

Diante de todo esse cenário, após os primeiros meses da pandemia, vimos uma volta gradual do apetite de investidores em VC até chegar a níveis pré-pandemia, o que é demonstrado com no último mês de 2020. Dezembro foi o mês mais movimentado da história em relação a investimentos em VC, com USD 580mm de volume investido³. Estes investimentos pós primeiros meses da pandemia focaram principalmente em setores que foram positivamente impactados pelas mudanças de comportamento causadas pela pandemia, como por exemplo o setor de saúde, e-commerce, marketplaces - imagina a nossa vida hoje sem Ifood ou Rappi?

"O ecossistema de startups no Brasil evoluiu de forma significativa."

snaq: Vimos um grande crescimento no número de M&As em 2020, na opinião de vocês quais são as principais causas desse movimento? Isso deve continuar em 2021?

JP:  Sim, isso é verdade. Esse movimento foi causado pelos seguintes motivos:

  • Com a pandemia ficou muito claro que a digitalização é um caminho necessário para a evolução de empresas. Muitas grandes companhias então optaram por comprar startups como a forma mais rápida para ter a possibilidade de oferecer determinado serviço ou produto de maneira mais inovadora ou para abrir uma nova frente de negócio. O processo de inovação em grandes empresas tende a ser caro e demorado, então pode fazer sentido promover isso através da aquisição de startups.
  • Uma dinâmica parecida acontece entre startups. Startups de maior porte e com um grande volume de capital levantado recorrem ao M&A para alavancar o seu crescimento. Em 2020, vimos caso como a Loft adquirindo a fintech Invest Mais ou a Omie comprando a Mintegra.
  • Outro movimento nítido de M&A que aconteceu ano passado foi a aquisição de startups com o objetivo de “acquihire”, que é quando uma empresa compra outra com o objetivo principal de incorporar o time da empresa comprada ao time da compradora, e não necessariamente o produto. No Brasil, por exemplo, como a mão de obra de desenvolvedores é escassa, muitas startups que já possuem uma reserva de capital maior compram outras com esse objetivo. Foi o caso da compra da PlataformaTec pelo Nubank ou da compra da Poppin pela Ingresse

E em 2021 esse movimento deve continuar. Nós devemos continuar a ver os 3 casos acima norteando as transações de M&A de startups.

snaq: Como vocês avaliariam a maturidade do ecossistema de startups no Brasil? Tanto em relação aos fundos e disponibilidade de capital quanto aos negócios em si.

JP: O ecossistema de startups no Brasil evoluiu de maneira significativa nos últimos anos. Os fatores abaixo são alguns exemplos que demonstram essa evolução:

  • O volume de investimentos em VC subiu consideravelmente nos últimos anos, saltando de USD 734 mm em 2017 para USD 3.5 bi em 2020. Isso demonstra que investidores enxergam cada vez mais venture capital com uma classe de ativos atrativa para a alocação de capital.
  • Vemos cada vez mais o surgimento de novos fundos de VC no Brasil e o fechamento de lacunas nos estágios de captação para startups brasileiras. Antes existiam muitos fundos focados no Series A, mas poucos focados nos estágios anteriores (pre-seed e seed), o que gerava uma espécie de “vale da morte”, já que as empresas muito early-stage não conseguiam captar.
    Este cenário mudou com o aparecimento de diversos fundos especializados neste estágio. Agora o gap principal está nos estágios de Series B e Series C, pois existem poucos fundos especializados nestes estágios no Brasil, o que faz com que as startups dependam de capital externo para essas rodadas. Porém, isto aqui também está mudando com a chegada de fundos especializados no setor ou com o investimento de fundos de outros ativos (private equity por exemplo) em rodadas de VC mais late-stage.
  • Outro fator super importante que ficou claro em 2020 e que demonstra a maturação do ecossistema de startups no Brasil foi a realização de IPOs de empresas de tecnologia que foram investidas por VCs. Existem duas principais saídas para os investidores em investimentos de VC: uma aquisição ou um IPO. No Brasil, não se via a segunda opção até 2020, como os IPOs de companhias como a Meliuz ou a Enjoei. Com isso, se abre mais uma via de saída para investimentos em VC
  • Também vemos a evolução do ecossistema pelo número de unicórnios que o Brasil possui, um total de 14 com a recente entrada da MadeiraMadeira nesta lista. É um número bem elevado para um ecossistema que se desenvolveu recentemente.
  • Por fim, mas não menos importante, outro fator que demonstra o amadurecimento do ecossistema é o maior interesse de talentos em trabalhar em startups. Hoje em dia, tanto recém-formados quanto pessoas com grande experiência de mercado enxergam startups como uma boa maneira de seguir uma carreira (seja trabalhando nelas ou começando uma). Isso faz com que mais talentos fiquem disponíveis para o setor e contribui para o desenvolvimento dele.

Ainda assim, o setor de venture capital no Brasil tem muito o que evoluir. Se compararmos o volume de investimento em VC no Brasil (USD 3.5 bi em 2020) com o volume de investimento em VC em outros países emergentes, nós percebemos que existe um gap enorme (USD 24 bi na Índia, USD 51 bi na China) entre eles. Portanto, ainda há muito espaço para o ecossistema de startups crescer no Brasil.

Novas perspectivas de negocios para o mercado brasileiro em 2021

snaq: Quais as perspectivas de vocês para o mercado em 2021?

R: As perspectivas são positivas. Nós esperamos que todas as tendências de amadurecimento do ecossistema continuem. Também esperamos que a competição por deals em VC continue crescendo, pois muitos fundos brasileiros fizeram captações recentes e precisam alocar o capital. Transações estratégicas de startups também devem continuar acontecendo pelos motivos mencionados acima. Portanto, a expectativa é de um mercado de VC bastante aquecido em 2021.

snaq: Qual será o foco da Norte em 2021 (setor, estágio, tecnologia...)

R: A Norte é agnóstica em relação a setores e majoritariamente investe nos estágios pre-seed e seed. Nós queremos sempre participar da primeira rodada em que uma empresa recebe capital institucional. Criamos uma tese que chamamos de "high-visibility" em que procuramos empresas formadas por times excepcionais, que procuram resolver problemas grandes, em mercados relevantes e que possuem benchmarks de sucesso em mercados semelhantes ao do Brasil. Além do investimento, nosso grande foco é ajudar empreendedores e contribuir para o ecossistema de empreendedorismo do Brasil, então sempre procuramos também conectar os empreendedores com pessoas que achamos relevantes do mercado e que possam ajudá-los a vencer os desafios envolvidos em empreender.

¹ fonte: Distrito - Relatório Inside Venture Capital Brasil

² fonte: LAVCA’s Annual Review of Tech Investment in Latin America

³ fonte: Distrito