Remédio ou Veneno?

A nossa área de #experts acaba de receber mais uma especialista - Daniela Graicar, CEO da Agência Pros! Após voltar do WebSummit Portugal, Daniela refletiu sobre toda a tecnologia que vem influenciando e impactando a nossa vida para o bem e para o mal.

Voltei do WebSummit, em Portugal, com uma certeza: a de que o mundo nunca viveu uma transformação tão intensa e visceral. Nossos filhos vão estudar esta época, com seus paradoxos, dilemas, transformações.

Quando adolescentes, nossas dúvidas eram, de certa forma, binárias. Era A ou B: pagar com cheque ou dinheiro, aceitar o convite pra sair ou não, fazer engenharia ou medicina. Era um mundo de menos opinião, de pouca disputa por atenção, de menos comparações, sem feeds lindos de Instagram relativizando a nossa felicidade. A gente fazia terapia pra tentar vasculhar nosso íntimo e, como disse Yuval Harari, se você não quisesse mergulhar no seu eu era uma opção só sua. 

No WebSummit, meditei (tentei) ao lado de centenas de estranhos no meio do caos e, em seguida, entrei em três palestras de tecnologia que mexeram comigo. 

Nunca foi tão urgente nos conhecermos. Nunca foi tão evidente que algumas empresas e órgãos públicos nos conhecem mais do que a gente mesmo. Nunca os algoritmos acertaram tanto e moldaram nossa opinião sobre tudo. A Amazon já me sugere produtos que eu desconhecia e sem os quais eu já não posso mais viver. Os governos sabem por onde andamos, quanto ganhamos, que risco somos capazes de representar.

A palestra da Edwina Dunn definiu bem um outro problema: "em 1950, você era o seu emprego. Em 1980, você era onde você morava. Em 2000, você era o que comprava e, hoje, você é as suas paixões".

Minhas paixões? Tem algo mais complexo e íntimo que uma invasão da inteligência artificial pra descobrir o que faz meu coração bater mais forte? Mas é isso mesmo. As máquinas já medem nosso sorriso, nosso olhar, nossa atenção.

E a gente acaba vivendo uma mistura do bem e do mal, do certo e do errado, que nos deixa muito confusos. Não queremos dar nossos dados, mas adoramos quando os aplicativos adivinham nossos destinos. Não queremos expor nossas vidas, mas não resistimos curtir várias fotos ao dia. Não queremos trabalhar para grandes e médias empresas, mas sabemos que elas dão mais segurança que uma startup. Queremos a flexibilidade do empreendedorismo, porém com as certezas da ultrapassada CLT.

Uma vida de fraquezas expostas, de preferências públicas, de concorrência até para saber quem sabe mais sobre você mesmo(a). Facebook? Amazon? Seu terapeuta?

Nunca estivemos tão em carne viva, tão expostos, tão frágeis.

Pois é quando a palestra de meditação termina e emenda com a de inteligência no uso de dados que a gente entende como é poderosa a intersecção dos extremos.

Imagine quando a gente aprender a combinar poesia com tecnologia, ciência com história, privacidade com convívio social, sustentabilidade com progresso e quando soubermos criar regras para garantir a liberdade.

A diferença entre remédio e veneno é a dosagem. E isso, a gente tem que aprender a escolher.