Co-criação: a visão de empreendedores que aliaram o melhor de suas expertises

Ter uma boa ideia é diferente de colocá-la em prática e fazer isso ao lado de outra pessoa pode facilitar e muito esse processo. Confira a entrevista com dois empreendedores que se uniram na criação de um novo negócio, além de algumas historias de sucesso de co-criação do mundo de tecnologia.

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Em um ecossistema com escassez de dinheiro e de recursos como o das startups, ter boas ideias muitas vezes não é suficiente para tirar um novo negócio do papel. Sabendo disso, baseado em uma prática bem comum no mercado, co-criar se tornou uma solução para o surgimento de diversos business. Ter ao seu lado um parceiro agrega não só com experiências, mas com competências, diferentes visões e o melhor de cada expertise.

Então seria esse o caminho do sucesso? Basta encontrar alguém que queira empreender ao seu lado? Talvez a resposta não seja tão simples assim, afinal engana-se quem acredita que essa relação é tranquila. Em teoria deveria, mas na prática divergências acontecem a todo momento, por isso, essa escolha deve ser analisada em diferentes aspectos.

Para falar sobre esse assunto entrevistamos Arthur Rufino, CEO da JR Diesel e Daniel Oelsner, sócio da Fisher Venture Builder, recém parceiros na criação de mais um negócio. A relação que começou através de uma live em meio a pandemia tem rendido bons frutos e nada melhor que a visão de empreendedores de ramos opostos que juntaram o mais relevante de suas expertises para esclarecer pontos importantes sobre co-criar.

Qual a sua visão sobre criar ao lado de alguém?

Arthur Rufino: Eu acredito muito que a criatividade é o ato de cruzar elementos que ninguém nunca cruzou e descobrir que algo diferente acontece. Criar sozinho limita o volume de elementos ao meu atual alcance. Só aquilo que eu conheço será cruzado. Criar em conjunto tem esse efeito não apenas de ampliar esse alcance, mas principalmente de garantir que mais cruzamentos sejam realizados num menor tempo. Na minha visão, é muito mais eficiente e construtivo.

Daniel Oelsner: Eu não conheço outra forma. Não acredito e nem conheço startups que foram construídas por um empreendedor sozinho, sempre é feita por um time de empreendedores. As startups de sucesso são aquelas que têm um time fantástico, com forte complementariedade de conhecimentos e competências, bela química para trabalhar em conjunto e, principalmente, compartilham propósito e visão.

Quais são as principais vantagens e desafios de se criar em conjunto?

Arthur Rufino: Além da velocidade na produção de resultados e na ampliação da base de conhecimento disponível para cruzamentos, atrair mais gente para o processo criativo traz uma diversidade de pontos de vista e opiniões sobre os potenciais resultados e efeitos das soluções propostas. Tudo isso evita que tais soluções sejam baseadas nas verdades de apenas uma pessoa e garante que haja maior aderência entre solução e problema. O desafio é o exercício de uma boa inteligência emocional, já que garantir que ideias diferentes sejam conectadas e respeitadas requer um mindset bem desenvolvido.

Daniel Oelsner: Penso que os desafios são estimular constantemente que haja respeito às diferenças, abertura constante para todos falarem, humildade para saber que não importa quem está certo e atenção para que a gestão do trabalho não demande muito tempo. As vantagens são enormes para o business, pois em um time há maior rapidez, melhores entregas e, principalmente, surgem ideias novas. Acho que já caiu por terra aquela imagem do empreendedor herói solitário, temos bons exemplos como Bill Gates que formou um par único com Paul Allen, Steve Jobs pôs em prática as ideias de Steve Wozniak, a desrupção do NuBank veio do time Cristina Junqueira, David Vélez e Edward Wible.

Criar ao lado de alguém é uma maneira mais fácil de tirar uma ideia do papel?

Arthur Rufino: Não posso afirmar que é a maneira mais fácil, justamente porque demanda muita habilidade na gestão de relacionamentos e conflitos, mas certamente é uma forma mais produtiva e eficiente.

Daniel Oelsner: Um negócio para existir depende de pessoas, já uma boa ideia de negócio cada um de nós tem várias. A ideia começa a sair do papel quando testamos elas com alguém próximo, de confiança, de preferência alguém que tenha conhecimento prático no território de negócios da ideia. Para buscar um parceiro para o negócio é importante haver algumas reflexões iniciais: quais competências básicas preciso reunir para por ela para funcionar? Quais destas eu tenho e não tenho? Quem são as pessoas próximas, que confio e que me complementam, e quem confio que posso testar a ideia de forma prática? Penso, também, que seus primeiros clientes são alguém com quem você deva co-criar na largada.

É necessário estabelecer valores e participações antes mesmo de colocar em prática o negócio?

Arthur Rufino: Quando algo está em processo de criação, é importante que haja o menor número possível de limitações e eu acredito que valores e participações são exemplos de limitações. Obviamente isso não é uma regra, mas acredito que a maioria dos processos criativos tendem a ser mais produtivos sem esse tipo de amarra.

Daniel Oelsner: Penso que este tema é ótimo para validar as questões de: propósito (para o outro pesa mais o retorno financeiro potencial que o negócio trará ou o impacto que ele terá), apetite a risco, disponibilidade a perder tempo e dinheiro. Pessoalmente, gosto de discutir a expectativa de participação de cada um na largada. Digo expectativa porque é comum haver uma confirmação mais adiante se estão no caminho de atender a expectativa de cada uma das partes.

Qual é recomendação para quem está pensando em co-criar ou começando um projeto ao lado de alguém?

Arthur Rufino: Inclua nos seus objetivos do processo criativo o valor que você deve gerar às partes envolvidas. Esse mindset de garantir o sucesso de todos certamente será recompensado com uma solução mais harmônica e sustentável no longo prazo.

Daniel Oelsner: Vá de peito e cabeça abertos. Se prepare para jornada. Avalie constantemente se você está conseguindo se manter saudável e estimulado mentalmente.

Veja algumas histórias de sucesso de co-criação:

Bill Hewlett e Dave Packard

Hewlett-Packard Company, popularmente conhecida como HP, foi fundada em uma garagem americana por William "Bill" Redington Hewlett e David "Dave" Packard. Essa famosa amizade do mundo de tecnologia começou em 1934 em um acampamento de três semanas. Cinco anos depois, os estudantes da universidade de Stanford criaram a HP com um investimento inicial de US$538.

Bill Gates e Paul Allen

Estudantes de uma mesma escola, Bill Gates conheceu Paul Allen na sétima série e logo criou uma admiração pelo companheiro "gênio dos computadores" dois anos mais velho. Anos depois criaram uma máquina para analisar informações obtidas pelos monitores de tráfego nas ruas da cidade. Entretanto, o produto não foi comprado por ninguém. Em 1974 os amigos entenderam a importância dos processadores e o desenvolvimento de novas tecnologia, fundando então a Microsoft.

Steve Jobs e Steve Wozniak

A Apple, hoje umas das principais bigtechs do mundo, foi fundada em 1976 pelos estudantes Steve Jobs e Steve Wozniak. O primeiro modelo da marca, o Apple I, foi criado nas horas livres de Wozniak e rejeitado pela HP e Atari, pois segundo as empresas os computadores pessoais não teriam futuro no mercado.

David Vélez, Cristina Junqueira e Edward Wible

O Colombiano David Velez veio para o Brasil abrir um escritório do fundo Sequoia, mas não obteve êxito. Frustrado com os bancos brasileiros se juntou com Cristina Junqueira e o estadunidense Edward Wible para criar uma startup que ofereceria serviços financeiros sem tarifa. Em maio de 2013 surge o Nubank em casa simples de São Paulo. Um ano depois já precisavam abrigar cerca de 300 funcionários.