Pontte, a fintech que recebeu um aporte R$ 160 milhões em meio a crise

Em meio a atual crise, a Pontte, fintech de crédito brasileira, anunciou uma rodada de investimento de R$160 milhões. Em uma entrevista exclusiva o CEO Marcelo Lubliner ele conta sobre a empresa, planos para o investimento e o que esperam para 2021. Confira também os diferentes cenários por quais a Pontte passou desde o início da pandemia em um bate-papo sincero e descontraído.

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Como surgiu a ideia para a criação da Pontte?

A Pontte veio de uma concepção que já havia dentro da Mauá Capital. Nós tínhamos conhecimento desse mercado, embora sempre com a visão muito mais para o lado do ativo. Nós comprávamos carteira de incorporadoras e consequentemente os clientes eram quem pagavam pelo empréstimo. Dessa maneira começamos a olhar pelo lado do passivo e percebemos como era difícil conseguir crédito no Brasil.

Nós convivemos de perto com toda a cadeia de crédito. Como é um ambiente muito ruim você tinha de tudo. Cobravam 10%, sendo que a selic é 2%, não pode existir isso. No final, toda a cadeia era muito ineficiente e quem pagava a conta era o cliente. Desse pensamento encontramos uma dor do cliente e que nós deveríamos atuar sobre ela.

Como solucionam essa dor?

O que a gente se propõe é fazer com que o cliente conviva com o crédito de um jeito sem pressão, de uma maneira construtiva e satisfatória. Em diversos países isso já existe de diferentes formas, melhores e piores, mas isso no Brasil sempre foi muito complicado. Se você pegar na história do indivíduo: ele vai estudar, casar, comprar uma casa, ter filhos, empreender... Pra tudo isso ele precisa de crédito. O crédito na verdade tangencia a vida das pessoas em diversos momentos.

Nós vimos muito no mercado: produtos errados, tratamentos errados… Se eu te der um empréstimo por cinco anos, você consegue me afirmar o que vai acontecer na sua vida nos próximos cinco anos? Nos próximos seis meses? Magina! Como então você faz um home equity home de 20 anos? O que a gente quer é que o contrato tenha flexibilidade para se ajustar na vida do indivíduo, sabendo que vai ter horas que você vai estar muito bem e horas que você vai estar muito mal e tudo bem, isso faz parte.

O que nós queremos é oferecer uma alternativa. Por aqui não é “just about the money”, estamos falando de sonhos. No limite eu vou criar um portfólio de crédito que você não precisa nem entender muito bem o que tem aqui dentro, apenas que ele é seu, que ele te atende e dá flexibilidade de um jeito muito fácil.

Qual será a finalidade desse aporte de R$160 milhões?

Já estamos rodando com o home equity, com financiamento imobiliário e algumas opções de crédito para pessoas jurídicas diferentes. Mas nós sabemos que ainda precisamos criar outros vários produtos e para isso eu preciso ter a inteligência por trás de cada um, tecnologia para conseguir fazer três perguntas para o cliente e saber o que oferecer pra ele, cada qual com sua combinação específica. Além disso, eu preciso dar pra ele toda essa agilidade que ele demanda. Esse dinheiro que está entrando é muito importante para ajudar nessa expansão ou seja para outros tipos de crédito, tecnologia e desenvolvimento de expertise para entender o cliente e moldar o produto para ele.

O aporte será mais para aumentar a sua capacidade de crédito ou na operação em si?

Sendo bem honesto, tudo o que é planejamento em startup tudo é bem diferente. Até o começo desse ano, as pessoas olhavam nosso crédito como a busca de um sonho. Veio a pandemia e ninguém mais olhou pra frente. Dessa forma, quem começou a procurar crédito era quem precisava do dinheiro pra agora. Então nosso perfil de cliente mudou muito. Para nós é muito difícil dizer quanto de dinheiro vou usar para isso ou para aquilo. Hoje o que nós sentimos maior necessidade é com o PJ que se mistura com a PF. Esse cara demanda um crédito que não é óbvio, então nós vamos precisar criar produtos que atendam essas pessoas que têm demandas extremamente diferentes. Atualmente a gente tem investido muito nisso, como combinar produtos de crédito com garantias diferentes e no fundo, para cliente nós queremos entregar uma solução só. Na largada é esse nosso foco, a partir do momento que começarmos a entender as coisas vamos começar investir em tecnologia para conseguir escalar.

Como está sendo passar por essa pandemia?

Mal .... como para todo mundo, mas como estamos em uma startup, a dinâmica é muito intensa, cada trimestre é totalmente diferente do anterior. De forma mais específica, a gente se deparou com situações conflitantes. Por um lado pensamos que a demanda de crédito ia aumentar, por outro tínhamos que segurar um pouco porque não sabíamos como ia ser o comportamento de inadimplência.

Na largada, a demanda por crédito não aumentou porque a primeira reação das pessoas foi tentar utilizar as diversas novas linhas do governo. Na fase dois, a demanda não explodiu e a inadimplência também não, porque nós fazíamos home equity com flexibilidade. Vindo para a fase três a demanda por crédito começou a crescer de fato.

E nós olhamos para dentro e tínhamos funding. Diferente de outras - várias outras - fintechs que começaram a apresentar dificuldade nesse sentido. Nisso, nós também tivemos dentro desse ecossistema uma união que permitiu ouvirmos: “Vamos juntos? Posso passar clientes para você?”. E isso foi bem bacana, pra gente, assim como eu acho que para as outras fintechs. Não é uma questão de que “é meu competidor, quero que ele feche”, pelo contrário, é poder ajudar nesse momento difícil quem tem um business estruturado de outra maneira. Tudo isso pra dizer que dentro de quatro meses, tivemos três cenários completamente diferentes.

Qual a sua opinião sobre o mercado de crédito brasileiro?

Mesmo com a pandemia o mercado de crédito vai crescer de uma forma extremamente importante. Isso porque tínhamos uma combinação viciosa que agora tende a se tornar virtuosa. Primeiro: o que mudou é que os juros estão muito mais baixos. Se o cliente quer sonhar, ele pode acessar um crédito e ele conseguirá conviver com ele, então naturalmente o crédito fará mais parte do mundo das pessoas. Segundo: toda essa questão das fintechs, das plataformas eletrônicas... Hoje você tem uma gama de fintech que se propõe a fazer esse tipo de trabalho. De novo, fintech não é melhor ou pior que banco, são “bichos” muito diferentes. Além disso, temos um ambiente regulatório que entendeu todas essas mudanças, que está falando de open banking, está falando de PIX e tudo isso ajuda muito na própria oferta de crédito, em conseguir fazer com que chegue o dinheiro certo na pessoa certa. Eu acho que o que vai acontecer nos próximos dois, três anos quanto ao mercado de crédito no Brasil vai ser uma revolução. O Brasil não sabe o que é crédito, o Brasil nunca conviveu com crédito. Sabe aquela história que o americano nasce e aprende a falar mamãe, papai e hipoteca. Aqui no Brasil ainda é uma dificuldade quando falamos sobre garantia imobiliária, as pessoas ainda estão aprendendo a lidar com isso.

Qual a sua opinião sobre o PIX, como ele esbarra no negócio da Pontte?

Quando nós falamos pela visão de crédito, o cliente precisa que funcione pra ele. A gente tem aqui um ecossistema, junto da Mauá, com diversos tipos de produtos e uma cultura de business interessante. Quando a gente fala de PIX, ele vai ser revolucionário, ele vai passar a ser do cliente e de alguma forma, as coisas vão se moldar mais a você do que as instituições financeiras que existem do outro lado. Se nós estamos falando de uma jornada agradável para o cliente, não dá pra achar que não estaremos ligado ao PIX. Para isso precisamos entender o que a gente precisa de ferramental para conseguir ver o que a gente agrega disso no nosso negócio. Como a nossa proposta é entregar uma melhor experiência isso está diretamente ligado.

E quanto a números, você pode abrir um pouco mais sobre isso?

As pessoas sempre são muito reticentes sobre isso, não gostam de falar sobre carteira, crescimento... Eu particularmente não entendo muito o porquê, mas aqui na Pontte, começamos nossas operações lá atrás fazendo isso na Mauá. Hoje nós já temos um volume importante, não só quanto a receita, mas em volume de dados. Nós estamos falando atualmente de 450 milhões de operações quando falamos de Mauá e Pontte. Isso orienta muito das nossas decisões estratégicas. Pra nós não faz sentido eu fazer uma operação com cliente em que eu dou o crédito, depois eu pego esse ativo e vendo para o mercado, cortando o relacionamento com ele. Poxa, você demora tanto pra conquistar o cliente e depois vai perdê-lo? Não, nosso relacionamento com o cliente é diferente, nós queremos estar juntos com ele em toda a jornada.

O que esperar da Pontte para o final deste ano e para 2021?

Primeiro esperar da gente um envolvimento maior com toda a jornada do cliente. O tempo todo teremos novidades com automatização, seja com melhoria de processos que já existem, seja no desenvolvimento de tecnologia para entender o perfil do cliente e como eu faço para transformar a jornada dele em um negócio mais fácil. Nós queremos te perguntar uma coisa e com base nessa informação conseguir buscar os dados que nós precisamos. Por outro lado, nós queremos também desenvolver novos produtos, mas principalmente produzir um produto dentro de casa.